Perder o domínio da canção aos setenta e três anos de idade e, aos sufocos, sobreviver mais sete temporadas é a sorte do homem.
Aquela menina chegou na casinha germinada com o pai-velho e o cachorro Moisés. Franzina a menina, cotovelos e joelhos saltados, perninhas tortas de tanta magreza. Tinha vergonha de suas pernas finas, nesses poucos anos de vida negava bermudas e saias. Nos olhos talvez houvesse maior contradição: o brilho não concordava com suas olheiras.
Era tão rápida quanto Moisés! Aquele pai-velho deveria morrer – pensava ele. Batia nas duas criaturas sem motivo relevante. Não para ele. Eram rápidas, jovens as criaturas.
Volta e meia esquecia o nome de D. Maria, sua esposa, só lembrava quando recorria aos nomes bíblicos. Colocara também nomes bíblicos nas crianças: João, João, Maria...três filhos, viviam ali mesmo na cidade. Não errava os nomes: João, João e Maria, nessa ordem mesmo.
D. Maria era mais nova que ele, mas não dava... Para ele era muito difícil ver aquela mulher gorda e velha, dava ânsia, eu concordo. Era chata, gorda e velha. Até os filhos estavam velhos, mas a menina e Moisés corriam como loucos, escutava o tranco do corpo do cachorro na parede do quintal, e a menina ria. O azulejo fazia-o escorregar, mas com aquela consciência estúpida de cachorro, Moisés continuava, mal sentia o impacto de seu corpo na parede. Deviam estar jogando bola. Ou alguma coisa do tipo. Eu imaginava. Correr no quintal dava vontade. Sua poltrona ficava ali, grudada na parede germinada à casa do pai-velho. Escutava muito bem, só não gostava mesmo era de falar. D. Maria que usasse o telefone, sua filha é quem paga a conta mesmo... Porque ele estava ali, na parede, muito melhor que o mundo inteiro. Até o chão tremia com a nossa brincadeira.
- O que você está fazendo ai?
Nem sabia mais porque perguntava, eu duvido. Era todo dia. Em dia de silêncio, estava ele lá. Dia de barulho, ia ele às forras. Mas ali ficava. Acordava com eles e dormia com eles. Ele sabia que a brincadeira não existia sem sua presença.
Quando a mulher morreu e não tinha mais quem o mandasse parar, mijou ali na poltrona mesmo, e riu muito, nós sabíamos que ele estava ficando novinho de novo. Ir à escola é que era chateação. Não conseguia prestar atenção naquela professora, tinha as tetas na cintura, nossa, que nojenta! A minha mãe não era assim, era linda, tinha cabelos compridos, pernas compridas, unhas vermelhas. Ele chorava para não ir à escola, mas o pai o obrigava.
Quando o pai-velho viajou, aquela menina recebeu um rapaz lá dentro de sua casa.
- Por que ela fazia isso comigo? – Eu não respondi nada a ele. Não adiantava. Tirou as calças e se esfregou compulsivamente. Abriu os olhos e lá estava a menina, em sua poltrona, com suas pernas finas, já estavam compridas as pernas. Ele só chorava, doía muito ver aquilo tudo.
O dia amanheceu e a menina bateu lá na casa dele. Ele saiu da poltrona onde passou sete anos e foi para o quintal brincar com Moisés.