terça-feira, 17 de novembro de 2009

(I)

Maria não é bonita de dia. O dia não é bonito para ela. Quem canta de manhã irrita Maria. Os carros, a rua, o trânsito o sol infernal no retrovisor a entontecem. Não há pop music que a mobilize. Não há bossa nova que amoleça o seu coração. Maria tem olheiras fundas, que lhe convidam para mergulhar. Mas você não o faz. Tá certo. Ela e eu compreendemos: nós não sabemos nadar, se você se afogasse, nem eu nem ela poderíamos lhe salvar, e você sabe, nesses casos de olheiras, não é recomendável usar bóia, não há proteção que lhe segure na superfície. Maria se sente pequena de dia, pois tudo está e nada é. O sol a tudo modifica. Esses animais feitos de casca, unhas e couro. Crescem, se reproduzem e morrem. Maria não cresce de dia. Eu a levo para a rua à noite, e cantamos o trilho iluminado de postes de luz e lua. Aí sim, os olhos escuros amarelam pra valer, e enxergamos tudo, até pulmão de fábrica. A caça dura. Ela prefere sentar na janela com o carro em movimento, para harmonizar cabelos e ares. E quando damos voltas, cacheamos as sarjetas, uma, duas, três voltas. É nessa hora que Maria ri, abre a boca e ri, dentes brancos língua firme e cordas que tocam rock’n roll dos mais disritmados. Riffs de um rock rural do grosso, enquanto eu bato no capô, marcando o passo. As ruas chegam a tudo, assim. Maria enobrece. Bonita, olhando o alto com olhos baixos, sem nenhuma pretensão que não seja a nudez dos nossos rostos, da nossa boca faminta. Saciados e de ponta cabeça. Horizonte arroxeia, gritamos um amém e a levo pra casa: bom dia, Maria.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Desfim




Por vezes quis desfazer suas tranças em outros dedos. Por dias quis descortinar as janelas da casa. Era nítido o arco-íris que se refazia ao toque no copo d’água. Era nítido o fundamento de se quebrar em cacos de copo, re-tomar-se água. Os dedos eram os seus. Entrelaçaram-se aos fios negros do próprio couro e livrou-os da ordem. Puxou as cortinas da janela, da porta da sala, do banheiro. A água agora percorria todos os cantos da casa, sem vidros, sem limites. Festim de cores a alcançar vales, trompas, você. Festim de cores a desfazer o fim.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

como tudo começou

meu piru nasceu pra dentro

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

canção




O vento desfez cachos e cachos voaram para outros ares
Desmancharam as luzes e cores do inverno
para enroscar nessa gota d’água de meio céu
Puxou pra baixo uma duas três talvez
E arrancou de vez o pretume do céu de janeiro
Não há teto cinza de poeira que não se desfaça a um pedido seu
Des-cacheam novelo fio a fios de queda
e a trança molha todos pés plantas raiz
Até atingir a alma das crianças
E fazer dos braços outros galhos a figurar fonte
A ofertar numa dança de carne de ossos de pedras

Danço em curvas para mergulhar na cabeça o seu nome
E espero o fundo do mundo me levar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Poesia com tudo dá




Nos meus anos de trabalho como redatora publicitária, muita coisa tosca tive que escrever. Os argumentos dos chefes e clientes são sempre os mesmos: todas as pessoas precisam entender (ou seja, partem do princípio de que são burras) e as pessoas não gostam de ler, texto não faz diferença (essa definição prefiro nem comentar). Mas coisas legais também apareceram, e davam à Criação oportunidade. Fez assim valer a pena os cinco anos em que vivi na e da comunicação. Como defendo a tese de que poesia com tudo dá (vide propaganda do Pão de Açúcar, com o concretismo de Arnaldo Antunes), brindo a despedida com um trabalho que desenvolvi junto com meu queridíssimo amigo e parceiro de criação, o ilustrador mais fodástico que conheci, Diego Barbosa.
Acima, a arte final de um anúncio de jornal veiculado no Valeparaibano, para parabenizar Taubaté por seu aniversário. O cliente é Quadra Empreendimentos, e esta redação é a adaptação de uma poesia que fiz sobre o trabalho da Quadra, que não me lembro se foi usada. A original segue abaixo.




A linha
pura
simples
variada
A linha
sonha
o trajeto
da virada
A linha
desenha
dez anos
de estrada

A vida é o projeto da Quadra.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

bufalus

Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida. (James Joyce)



Ele estava só
Abandonado e feliz
Perto do selvagem coração da vida
Ele estava sim, ausência
Mordendo o silêncio
como se nem os dentes rangessem
como se nem a fome gritasse
Era frio e quente o derramamento de ar
de suas narinas, sua-ave-mente
transportava-se ao próprio coração
como quem morde a maçã proibida
como quem faz o fogo dos deuses
como quem se entrega à gravidade terrestre
E voa. Com o rastro do fogo que lhe foi consagrado
Com o rastro das asas que lhe foi concedido
Sua mente selvagem, seus braços selvagens
Seu coração selvagem
E torna-se eternamente irresponsável
pelo que cativa:
Liberdade em rendição.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

no more tears

Os olhos caíram do rosto
E os lábios desembocaram em outras avenidas.
Ninguém participa da não-euforia
senão eu
Não há fremitação que me faça
descascar
Hoje eu sou o mau agouro
Faça fogo ou faça mar
Sou má companhia para perpetuar
a nossa espécie vitoriosa, darling.
Talvez fique mais bonita assim,
Ao longe, vestida de toda fumaça que sai da garganta
Ao longe, vestida de toda fumaça que canta perfeição
Talvez mereça o jogo o vício o sopro que não tenho
Hoje eu sou má companhia
Afogado demais nas trevas de mim
E só lâmina suave a talhar-me as partes de um todo que é muito pouco
E só fazer o sangue das marias que não vejo brotar
Pode hoje me fazer delirar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

L-íris

para sim
para não,
eis que nossos olhos se confundiram:

abro os olhos
com os cílios que piscaram pra mim.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

É limão e sal na saliva agora
Meço o trago, o soluço
a tontura de amanhã
A cabeça diz adeus, mas o corpo, imã
vai-se junto com a inércia movimento
Rastreia o cheiro da fome, é a morte
que esperamos comer
Não me lavo, não me limpo
de todo instinto de prazer rural
Pata, rabo, estômago, cu
Até que o pelo a pele o peito
acabe com o cabo do medo da dor
acabe com o maço, com a bita,
queime o filtro, queime a casa
É no peito que te quero
vício, fumaça e pó.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Narrativas perdidas ou na noite tem lua

Depois do riso, o temporal. Essas previsões acabam comigo, Leslie. Não me chame de Leslie, hoje sou Anatélia. Tudo bem, desculpa. O que? Desculpa, porra! Tá. Depois do riso, o animal. Fome de mato, tire as calças Leslie, desculpa, Anatélia. Como é que eu vou embora agora? Como é que eu vou embora sem chamar o nome do dia? O número não muda, darling. Tá certa. Depois do riso, o choro ardido. Não se vista ainda, prefiro morrer ao lhe ver de partida. Riu de novo. E mais uma vez, vendaval. Depois do riso, o gozo. 31345596. O que é isso, cara? É você. Depois do riso, o cigarro. Aqui pode, a casa é privada, e eu também. Vou dar descarga, Anatélia. Depois do riso, a hora. Não esquece a chave do carro, a gravata e o cheque. Tá certa, você tá certa. Depois do riso, a porta travada. Sem beijo de despedida, pra querer voltar. Mas chamo você de amor, e assim você não muda. Também não quero mudar, 31345596. Temo ser inevitável. Mas Anatélia pode gostar. É, pode ser que ela goste. Rua abaixo. Depois do riso, você. Abri o guarda-chuva pra me proteger, mas não adiantou. Oi. Oi, Kelly. Não, Sandrinha. Depois do riso, o nada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ela é sexta

Direita, habilidade on the rocks, limão em cachaça. Na esquerda, anel-ferrugem e um documento recheado de todo tipo de ilegalidade. Amor, minha ressaca antecipada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A gravata do dia

Nossa mente esconde o fogo do mundo,
por isso espero você dizer a hora.
Olhos e um bom motor Volkswagen
filmam as ilhas que passam
Nas ruas, nos becos, na faixa de pedestres.
E vamos nós a declamar a pré-história
E vamos nós a soletrar as mais variadas
formas de acender o cigarro do inimigo
Até jogar no lixo as últimas doze horas
que vivemos.

Aperte esse nó pra mim, baby.
Pedi que fosse suave a inglória
e que os ais não fossem longos
pois, nenhuma maria vale
o nosso sofrimento noturno,
camarada.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O domínio da canção

Perder o domínio da canção aos setenta e três anos de idade e, aos sufocos, sobreviver mais sete temporadas é a sorte do homem.
Aquela menina chegou na casinha germinada com o pai-velho e o cachorro Moisés. Franzina a menina, cotovelos e joelhos saltados, perninhas tortas de tanta magreza. Tinha vergonha de suas pernas finas, nesses poucos anos de vida negava bermudas e saias. Nos olhos talvez houvesse maior contradição: o brilho não concordava com suas olheiras.
Era tão rápida quanto Moisés! Aquele pai-velho deveria morrer – pensava ele. Batia nas duas criaturas sem motivo relevante. Não para ele. Eram rápidas, jovens as criaturas.
Volta e meia esquecia o nome de D. Maria, sua esposa, só lembrava quando recorria aos nomes bíblicos. Colocara também nomes bíblicos nas crianças: João, João, Maria...três filhos, viviam ali mesmo na cidade. Não errava os nomes: João, João e Maria, nessa ordem mesmo.
D. Maria era mais nova que ele, mas não dava... Para ele era muito difícil ver aquela mulher gorda e velha, dava ânsia, eu concordo. Era chata, gorda e velha. Até os filhos estavam velhos, mas a menina e Moisés corriam como loucos, escutava o tranco do corpo do cachorro na parede do quintal, e a menina ria. O azulejo fazia-o escorregar, mas com aquela consciência estúpida de cachorro, Moisés continuava, mal sentia o impacto de seu corpo na parede. Deviam estar jogando bola. Ou alguma coisa do tipo. Eu imaginava. Correr no quintal dava vontade. Sua poltrona ficava ali, grudada na parede germinada à casa do pai-velho. Escutava muito bem, só não gostava mesmo era de falar. D. Maria que usasse o telefone, sua filha é quem paga a conta mesmo... Porque ele estava ali, na parede, muito melhor que o mundo inteiro. Até o chão tremia com a nossa brincadeira.
- O que você está fazendo ai?
Nem sabia mais porque perguntava, eu duvido. Era todo dia. Em dia de silêncio, estava ele lá. Dia de barulho, ia ele às forras. Mas ali ficava. Acordava com eles e dormia com eles. Ele sabia que a brincadeira não existia sem sua presença.
Quando a mulher morreu e não tinha mais quem o mandasse parar, mijou ali na poltrona mesmo, e riu muito, nós sabíamos que ele estava ficando novinho de novo. Ir à escola é que era chateação. Não conseguia prestar atenção naquela professora, tinha as tetas na cintura, nossa, que nojenta! A minha mãe não era assim, era linda, tinha cabelos compridos, pernas compridas, unhas vermelhas. Ele chorava para não ir à escola, mas o pai o obrigava.
Quando o pai-velho viajou, aquela menina recebeu um rapaz lá dentro de sua casa.
- Por que ela fazia isso comigo? – Eu não respondi nada a ele. Não adiantava. Tirou as calças e se esfregou compulsivamente. Abriu os olhos e lá estava a menina, em sua poltrona, com suas pernas finas, já estavam compridas as pernas. Ele só chorava, doía muito ver aquilo tudo.
O dia amanheceu e a menina bateu lá na casa dele. Ele saiu da poltrona onde passou sete anos e foi para o quintal brincar com Moisés.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

minhas mãos
às voltas com seu pescoço
a lhe estrangular a morte
até que re-viva

pressão visceral:
meus polegares a indicar o céu.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

desfuga

Quando penso em sair do interior
Passar por ruas de prata
Frases enormes no céu,
Entreabertas para os olhos
do des-passante
Volto para dentro da casca dura
do caipira que sou
Pele escura, de grosso couro
Mãos pesadas a capinar meus sonhos

Um cacto vivo nas ruas de prata.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Repartida

Vi você partir, e aquilo me deu todo tipo de calafrio. Do frio que vem de longe pra rasgar a pele a aquele mais suave, que resfria primeiro o sangue e suga e sua a pele.
Ouvi o seu adeus como se eu pagasse o nosso pecado, e os passos pareciam mais largos e o tempo corria mais que o esperado. Pedi, então, uma carona até onde tivesse ar, e o mais sério de você me disse: ele está aqui, só não quer lhe encontrar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

dança



Sua perna balança.
A infância não lhe deixa,
criança.



(ao meu amigo-filho Dids, companheiro de Terras e Terras do Nunca)

Fio da vida

Mexendo os cachos de moça, encontrei fios brancos novos. Não perdidos, como era de costume, mas intensos. Presentes. Esses que anunciam, prenunciam, pronunciam. Não é ironia pensar que fios novinhos são velhos? Fiquei triste porque era o papel que a moça dos cachos deveria cumprir. Fiquei feliz também pela moça dos cachos.
Liguei para a minha mãe. Ela riu. – Parabéns. – ela me disse. Parabéns ela disse a moça dos cachos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Solte o chicote
a pistola velha
Esse sorriso amarelo
de quem venceu a Guerra
Abaixe a cabeça, o trema
A rima fracassada
Essa métrica encomendada
Tire o luto, ela não morreu
Ela voa, senhor.
Voluptuosa e nua
Cale a boca e ouça e só.

A linguagem não é sua